Questão de Segurança

 

Especialistas dão dicas para ajudar a escolher brinquedos mais seguros e evitar possíveis riscos à saúde das crianças

Na carta para o Papai Noel, a meninada faz seus pedidos: um urso fofo, uma boneca gigante, um carrinho reluzente... Cabe aos pais acrescentar no canto da carta mais uma orientação: que o brinquedo seja seguro.

Um dos primeiros aspectos a prestar atenção é a qualidade do brinquedo. Os que são voltados para crianças até 14 anos devem apresentar o selo do Inmetro. Isso significa que o brinquedo passou por testes como os de impacto, de inflamabilidade e de mordida - para ver se a criança consegue arrancar pedaços pequenos da peça com a boca. As peças sem o selo não foram submetidas aos testes ou não foram aprovadas neles.

E não é só no comércio informal que os brinquedos sem certificação estão à venda. A "Operação Papai Noel", realizada pelo Ipem (Instituto de Pesos e Medidas do Estado de São Paulo) entre os dias 1º e 5 do mês de dezembro, confiscou 612 brinquedos que estavam sendo vendidos sem o selo do Inmetro em quatro lojas de São Paulo e São Bernardo do Campo (Grande São Paulo). Mais 495 brinquedos irregulares foram apreendidos em 11 lojas de São José dos Campos, São José do Rio Preto, Campinas e Bauru.

Para complicar, mesmo os brinquedos certificados viraram alvo de desconfiança depois que marcas como Mattel e Gulliver promoveram o recall de algumas peças. Mas, segundo Alessandra Fronçoia, coordenadora da ONG Criança Segura, os brinquedos à venda no país são seguros. "Depois que as peças foram recolhidas, o Inmetro avisou que seria mais rigoroso na certificação", diz.

Gustavo Kuster, gerente de regulamentação do Inmetro, ressalta que, no Brasil, a medida foi preventiva - já que aqui não houve registro de acidentes. Depois disso, conta, o Inmetro mudou as regras para a importação. Até então, era feita uma certificação no país de origem do brinquedo, e os testes eram repetidos a cada seis meses, no país produtor e no Brasil. Após o recall, a regra passou a ser testar cada lote de brinquedos que chega ao país.

Depois de o presente ser devidamente escolhido, embrulhado e colocado sob a árvore, a missão de pais e cuidadores não termina.

"O selo do Inmetro assegura que o brinquedo é resistente, que não tem materiais tóxicos. Mas não garante que a criança não irá se machucar", afirma o pediatra Tulio Konstantyner, pesquisador do projeto CrechEficiente, da Universidade Federal de São Paulo.

Depois da seleção, vêm a supervisão, a manutenção e o armazenamento, avisa a pediatra Renata Wasksman, presidente do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria. "Brinquedo não é babá de criança", ressalta. Veja a seguir as dicas de especialistas para cada uma dessas etapas.

 

BICICLETA E PATINS
Um dos sonhos de consumo infantil, as bicicletas devem ser acompanhadas sempre de outro presente: um capacete. Ao escolher, fique atento para que o capacete não fique solto nem apertado na cabeça da criança. Como essas peças não recebem o selo do Inmetro, já que não há normas definidas para sua fabricação, a compra deve levar em consideração aspectos como a credibilidade do fabricante.

Ensine a criança a olhar sempre para a esquerda, para direita e novamente para a esquerda antes de entrar numa rua; se pedalar à noite, é necessário usar material refletor na roupa e na bicicleta.

Para saber o tamanho adequado da bicicleta: os pés das crianças devem alcançar o chão enquanto ela estiver sentada no selim. Quando a criança pedalar, deve usar sapatos fechados e evitar cadarços folgados ou soltos.

VIDEOGAME
Jogos eletrônicos também podem ter consequencias para a saúde. Passar muito tempo brincando dessa forma pode trazer problemas posturais e oftalmológicos. Busque controlar o tempo de uso desses jogos e também fique atento à cadeira e à posição da criança diante da tela.

FAIXA ETÁRIA
Ao comprar um brinquedo, fique atento à faixa etária para a qual é indicado. Os testes de segurança variam conforme a indicação, e uma peça segura para uma criança de oito anos pode oferecer riscos para outra de dois anos.

PIRATARIA
Não adquira brinquedos falsificados. Essas peças não passam pelos mesmos testes dos brinquedos originais e, por isso, podem oferecer risco para as crianças, como ter substâncias tóxicas em sua composição ou formar arestas pontiagudas ao quebrar.

MÓBILE
É um mito que os móbiles podem deixar as crianças estrábicas. Essas peças são, na verdade, benéficas para o desenvolvimento dos bebês. A dica é trocar de vez em quando, para que a criança continue a ser estimulada.

ARTESANATO
Não é por ser artesanal ou ter uma proposta educativa que um brinquedo está acima do controle de segurança. Pequenos fabricantes também devem ser certificados pelo Inmetro - processo que pode durar um pouco mais de 40 dias, caso a empresa tenha poucos funcionários e os brinquedos passem imediatamente nos testes. Brinquedos sem o selo do Inmetro oferecem tantos riscos de toxicidade e acidentes quanto os falsificados.

EMBALAGEM
Uma embalagem bonita torna qualquer presente ainda mais interessante. Mas os adultos devem estar atentos para que a embalagem seja descartada o quanto antes, pois as fitas e os sacos plásticos oferecem riscos de estrangulamento e asfixia, e os grampos podem ferir as crianças.

IMPORTADOS
Brinquedos vendidos no Mercosul, nos EUA e na Europa devem seguir as mesmas normas dos que são vendidos no Brasil. Quem quiser comprar brinquedos no exterior deve buscar saber qual é a certificadora equivalente ao Inmetro no país e só comprar as peças que tenham o selo.

TAMANHO
Para testar se uma peça oferece ou não riscos para crianças em fase oral, a dica é usar um tubo para guardar filme fotográfico. Tudo que couber no recipiente deve ficar fora do alcance de crianças até os quatro anos de idade.

COMPRIMENTO
Evite brinquedos com correntes, fios, fitas e cordas com mais de 15cm de comprimento para crianças até os quatro anos de idade, já que elas podem enrolá-los no pescoço, correndo o risco de estrangulamento.

SOM
Evite brinquedos que geram ruídos muito altos ou estridentes. Como as crianças usam essas peças repetidamente e perto do ouvido, isso pode gerar lesões. Para receber a certificação, um brinquedo sonoro deve gerar ruídos que chegam até a criança com, no máximo, 85 decibéis (equivalente ao barulho de uma avenida com tráfego pesado). No caso de objetos que ficam perto do ouvido, como telefones de brinquedo, o limite é menor: 80 decibéis. Uma dica: se o adulto considerar o som incômodo, não deve oferecê-lo à criança.

PISTOLA-D´ÁGUA
Outro brinquedo comum no verão, as pistolas-d´água podem ser perigosas, dependendo da pressão com a qual a água é ejetada. Traumas nos olhos são comuns. De modo geral, brinquedos que arremessem ou lancem componentes não são indicados para crianças com menos de cinco anos. A brincadeira deve ser supervisionada por um adulto.

MANUTENÇÃO
Verifique os brinquedo com frequencia, para ver se algum deles quebrou e está com pontas afiadas, por exemplo. A limpeza também é importante: busque seguir a orientação do fabricante. Peças de plástico e de borracha devem ser lavadas semanalmente com sabão neutro; peças de madeira podem ser higienizadas com um pano úmido.

GUARDAR
Ensine as crianças a guardar os brinquedos após usá-los - isso evita o risco de tropeços e escorregões. Escolha, para este fim, uma caixa que não tenha travas ou tampas que possam prender os dedos das crianças.

IRMÃOS
Controlar o uso de brinquedos conforme a faixa etária pode ser difícil quando as crianças têm acesso às peças dos irmãos mais velhos. O importante, nesse caso, é guardar separadamente os brinquedos, tendo em mente dois grupos: aqueles que são voltados crianças até três anos e aqueles indicados para crianças mais velhas.

Isso significa que não há perigo em uma criança de um ano ter acesso aos brinquedos de outra de três anos. Uma criança de cinco anos também pode compartilhar brinquedos com as mais velhas. Os brinquedos para faixas etárias acima de três anos devem ser guardados em locais que as menores não alcançam.

PILHAS
Quando um brinquedo precisar de pilhas, elas devem ser armazenadas de forma que a criança não consiga retirá-las. As pilhas contêm substâncias tóxicas e corrosivas e, caso a criança as engula, esse material pode ser liberado no estômago com consequencias muito graves, com úlceras.

BÓIAS
As bóias não são consideradas equipamentos de segurança, e sim brinquedos. Por isso, devem ter o selo do Inmetro. Seu uso deve ser sempre acompanhado por um adulto.

BEXIGAS
Evite utilizar balões de látex e, se usá-los, supervisione a brincadeira da crianças com menos de seis anos de idade. Não as deixe encher bexigas e tenha cuidado com os pedaços das que estourarem, já que eles podem ser ingeridos e causar asfixia.

Fontes:

Amarílis Lage
da reportagem local - Folha de São Paulo

Alessandra Françoia, coordenadora do programa formação de mobilizadores da ONG Criança Segura; Gustavo Kuster, gerente de regulamentação do Inmetro; Osvaldo Kinochita, gerente técnico da Cebratec (Centro Brasileiro de Tecnologia e Segurança de Produtos); Renata Waksman, presidente do departamento de segurança da criança e do adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria; Tulio Konstantyner, pesquisador do projeto CrechEficiente, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).